"Espero que esse velho trem quebre para que eu possa caminhar por aí."

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sonho

Os dias parecem máquina nessa subdivisão da cidade. Será que eles não percebem? São peçinhas de vida. Vivem dentro de um vídeo game de gente grande. O que você quer comer hoje, Mallory? Eu quero comer felicidade, mamãe. Algo dourado bem pequenininho com poder de explosão. Quero experimentar alguns dias azuis, lilases e brancos – esses últimos eu irei escolher a cor. E após o jantar, para sobremesa eu quero um sonho. Eu mesmo vou prepará-lo enquanto a primavera decora lá fora, vou seguir a receita com total exatidão. Eu posso separar tudo durante o dia, ir guardando tudo em um armário daqueles que cabem qualquer coisa. Assim que eu acordar posso separar o nascer do meu Sol refletido nas seivas do vizinho, a sensação da adolescência queimando em mim, a pasta de dente escorrendo sobre o meu pescoço e o Bob Marley cantando enquanto as pessoas correm para pegar o trem. Ao chegar na escola eu começo separando a minha vontade de rir da cara de sono deles, separo também as risadas e as piadas, o amor que eu sinto por ele e cada coisinha cretina que ele me provoca, separo os quinze minutos do banho de Sol e a aula de filosofia, só. Chegando na hora do almoço eu a separo inteira, separo meus pais inteiros, os quero na receita sem pensar uma única vez. Cada bobagem que meu pai costuma dizer e cada conselho bobo que a minha mãe costuma dar, eu os quero mais e mais e mais, Tempo. O resto da tarde não costuma me provocar grandes coisas, portanto os ingredientes são coisas simples, nada de muito caro. Bom, então acho que posso começar. Deito a cabeça no travesseiro, ouço a chuva lavar tudo, olho no relógio e..


C, Mallory.

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